Pirulito de Açúcar

Açúcar

Da primeira vez que aconteceu, ainda não sabia, mas já estava grávida. O marido embarcava em um ônibus caindo aos pedaços e logo mandaria buscá-la. Entre as promessas e os sonhos de uma vida melhor para os filhos que um dia sonhavam em ter, a esperança de comida à mesa todos os dias. E foi assim, ao se despedir de seu amor, que seus olhos se encheram de água e sua boca foi surpreendida por um inesperado sabor.

E agora, ria sozinha sempre que pensava nele.

Nunca mais foi capaz sequer de ouvir o nome do marido sem ter os sentidos invadidos por uma fortíssima e azeda sensação. Sentia como se o provasse. Limão, o Rosa, que crescia como mato no fundo do terreno ao lado de sua casa. Suculento, perfumado, ácido e com a casca ferida, levemente enrugada.   

Ingredientes

1 kg de açúcar (cristal ou refinado)

 Suco de um limão pequeno

1 copo (de 200 ml) de água  

100 ml de mel

 

Dessa forma, também, descobriu que estava grávida.

No momento imediato em que foi tomada pelo gosto de mel na boca.

Há semanas estava diferente. Não tanto pelos enjoos, ou mesmo pelos seios doloridos, mas por aquele estranho e novo fenômeno. Tudo para ela agora tinha um sabor. A angústia muda pela falta de notícias de Arthur dava-lhe ao paladar a lembrança de amendoim torrado. O passar lento das horas, por mais que evitasse pensar nisso, o aroma da manteiga. Só as panelas, a cada dia mais vazias, insistiam em não ter gosto de nada.  

Nada.

Abriu a última lata da prateleira.

Dentro dela, o único ingrediente restante enchia-lhe o paladar de um inusitado toque de calangos. Não que jamais os houvesse provado, não poderia sequer imaginar o horror de algo assim, mas, por algum capricho daquele fenômeno singular, lhes adivinhava o gosto, a textura. Eram os últimos a resistir por aquelas bandas. Os lagartos e ela.

Tentando se desfazer da agonia, levou a mão à barriga que há 9 meses ao compasso da espera por notícias, arredondava aos poucos e a cada dia mais.

− E o que se faz, meu santinho, com um punhado de açúcar e só?  

Pirulitos.

A resposta lhe veio súbita, assim como súbitas lhe vieram as primeiras contrações. Mansas. Como que avisando que ainda havia tempo. Algum. Mas nem tanto.

 Modo de Preparo

Ligou o fogo. Brando. Em uma panela, colocou a água e espremeu o suco de um limão. Tateou a prateleira. Na falta de mel, que era o ingrediente certo da receita, com sorte encontraria um pouco de melaço. Lá estava. Escondido, já no final e cristalizado, mas pronto para ser cozido junto ao resto. Depois, despejou o açúcar. Aos poucos e mexendo sempre. 20 minutos. E a calda amarela e levemente consistente, estava pronta para descansar. 5 minutos. Só o tempo de deixar o calor escapar. Só um pouco e o suficiente para não queimar a mão.

A ideia do doce viera acompanhada do plano de fuga. Faria pirulitos de açúcar, os mais bonitos que conseguisse com o pouco que tinha. E os venderia na praça do centro da cidade vizinha. Em frente à rodoviária. Do lado da escola. Aquela com meninos filhos de gente rica. Meninos com camisa branca e com piscinas dentro de casa. Um mundo de água bem no meio do nada.

Iria até a cidade a pé. 14 quilômetros.

E com o dinheiro arrecadado, não muito, mas o suficiente para comprar uma passagem, viajaria para a capital procurar pelo marido. Também seu filho, um dia, usaria camisa engomada em uma escola da cidade grande.

Luiza sonhava enquanto subia no banquinho.

Sobre o guarda-roupa, o Material que precisava para embalar os docinhos. Dentro de uma caixa de sapatos, o álbum de fotografias. Um daqueles antigos com as fotos presas por cantoneiras e as páginas divididas entre si, uma a uma, com papel manteiga. Retirou duas folhas e beijou a fotografia da mãe. Tinha gosto de cupuaçu.

Os palitos não seriam problema. Arrancaria a cabeça dos fósforos que descansavam ao lado da vela. O santinho, certamente entenderia a necessidade de seu gesto. Para compensar, rezaria o terço duas vezes, assim que tivesse oportunidade.

Fez as contas.

Se tudo desse certo, arrecadaria 25 reais. A receita rendia 60 pirulitos. Contava nos dedos os 50 que venderia, e além dos 2 que comeria, única refeição de seu dia, ainda poderia usar outros 8 como reserva. Seu plano era perfeito.

 Modo de Embalar

Cortou o papel em pequenos retângulos, 9 X 6 cm, era meticulosa, e os enrolou formando cones delicados. Depois, fechou o fundo para não vazar. Fazia como aprendera com a mãe. Vira-a moldando açúcar, durante toda a vida. Naquele tempo, conseguia criar os filhos só com a renda dos pirulitos. Talvez ainda fosse possível. Talvez na cidade grande, um lugar cheio de meninos e gente rica, e moças bem vestidas que gostavam de passear felizes, com os namorados e com um doce sempre à mão. Moças bonitas que sorriam à toa e se admirariam com o sabor de algo tão normal.

Abriu alguns buracos no fundo da caixa de papelão e encaixou neles os papeizinhos moldados. Agora era só preencher com a calda e deixar esfriar por dez minutos antes de colocar os palitos.

Suspirou. Estava pronto. Admirou seu pequeno tesouro em forma de sombrinhas fechadas e os deixou descansar em temperatura ambiente. No dia seguinte, se tudo desse certo, estaria livre daquele gosto de casca de gabiroba queimada que a solidão insistia em lhe causar.

Dormiu um sono entrecortado pelas contrações ainda leves. E pela ansiedade que agora também tinha um novo aroma. Araticum. Quando pudesse, acrescentaria este e muitos outros sabores à sua pequena fábrica.

Quando pôs o pé na Estrada, o sol já nascia e um forte sabor de tamarindos a acompanhava. Tinha tempo de sobra para pegar os meninos ainda na entrada da primeira aula.

E caminhou.

A cada passo um novo gosto.

A cada gosto, uma nova ideia.

A cada ideia, um novo aperto em seu ventre.

As dores lhe vinham agora, aos poucos, a cada minuto mais próximas. Aquela vida com gosto de mel insistia, não via a hora de rebentar.

Vendeu as duas primeiras guloseimas antes mesmo de chegar ao portão do pátio de entrada. Uma mãe, também ela grávida, comprou o mimo para o mais velho e, sentindo-se cheia de graça pelo gesto que julgou ser de genuína caridade, comprou o segundo. Sorrindo.

Assim como sorrindo, ela guardou a moeda no sutiã, e, já se arrependendo de não ter pensado em algum tipo de bolsa ou cofre, voltou-se para atender o cliente que encostava a mão pesada em seu ombro.

Bom dia.

A senhora tem licença?

Luiza custou um pouco a compreender.

Não sabia nada daquela coisa de licença. A mãe, certamente nunca tivera uma. Alvará. A palavra lhe dava algo que a língua não conseguia identificar.

E foi assim, tentando decifrar aquela sensação desconhecida, que viu o moço da prefeitura levar consigo e sem pagar, os outros 56 doces que fizera. Todos. Ou quase isso. Já que o fiscal devolvera os 2 que ela afirmava, eram apenas para comer. Não era ele, afinal, nenhum tipo de desalmado. Apenas cumpria sua função em uma terra de trabalho escasso e excessivas bocas a alimentar.  

E foi assim, igualmente, que sentiu as pernas bambearem, vendo a moeda cair sobre o líquido que escapava quente de seu ventre.

Mel.

Assim seria o nome da menina. A primeira de sete que, também não sabia ainda, logo viria a ter. Todos meninos. Todos de Arthur. Todos com os nomes de ingredientes que iria aos poucos redescobrir. Umbu, Juá, Marmelinho, Cajá, Cambuzinho e Coralito. Coisas de sua terra. Frutos de sua gente. Sabores acrescentados, um a um, à sua pequena fábrica de pirulitos. Nenhum na cidade grande, mas todos com o sabor do orgulho.  Quem sabe um dia com alvará.  

Já deitada no banco da praça, as dores lhe vieram intensas, e olhou para o lado da rodoviária fechando os olhos, mordendo os lábios, e já sentindo, aliviada, o esperado gosto do limão. O rosa.  

(Paula Giannini)